Cá estou eu na Suécia: poucos portugueses com quem falar, socialmente faminta e com saudade dos amigos que fiz e dos que não fiz nos meus anos em Portugal. Mas sobretudo tenho saudade da treta!
Da treta que nós portugueses tão amigavelmente e inconscientemente partilhamos uns com os outros ( e por vezes obrigamos uns aos outros). Acerditem ou não a treta que os Suecos partilham entre si não é a mesma treta que nós partilhamos em Portugal . A treta francesa não é igual á espanhola que por sua vez não é igual á italiana, que por sua vez difere da inglesa…bem já perceberam onde quero chegar… conversas do dia á dia que tanto nos põe de bom humor como nos dão vontade de arrancar os cabelos…aqueles assuntos sem assunto que nos confirmam todos os dias que fazemos parte da mesma sociedade. È disso que tenho saudade: de me sentir em casa!… e nestas palavras, Senhores e senhoras temos a resposta a uma das perguntas mais intrigantes do século passado:
O que é que os emigrantes têm na cabeça? Depois de anos em países “civilizados” e com regalias sociais ainda inimagináveis em Portugal… porque é que voltam? O que é que Portugal tem que esses paises não têm? a resposta?
Uma inimitável conversa da treta!




Só por tocares no ponto do “porque é que regressam…”.
Aqui (Suiça) uma das razões é porque o estado os mete a correr por tentarem furar o sistema bastantes anos seguidos. Claro que depois passam o resto da vida a queixar-se que a Suiça está muito mal quando enquanto cá estiveram, por muitos anos, em vez de se tentarem integrar no sistema tentaram trabalhar o mesnos possível e usufruir das ajudas sociais. As excepções são extremamente raras.
Outros conseguem furar perfeitamente o sistema e reclamam subsídios de invalidez estando longe de serem inválidos, que recebido em Portugal acaba por ser um ordenado jeitoso (aqui já ele é).
Graças a tudo isto, e agora compreendo porquê, demorei 7 meses a arranjar um emprego no meu sector (marketing/publicidade/design/multimedia) pois mesmo que o meu CV e Portfolio não tivessem absolutamente nada a ver, as entrevistas de emprego estavam a ser todas iguais:
“Então veio para as limpezas?”. Felizmente estou muito bem e não estou a trabalhar nas limpezas ou na contrução o mínimo de tempo possível, para ficar no desemprego (ou “chómagem”) o máximo de tempo possível e enxovalhar o meu registo laboral que muitos Portugueses extremamente mal informados nem sabem que existe e questionam-se estupidamente “como é que eles sabem que eu não gosto de trabalhar e ando há 20 anos a saltar em trabalhos temporários de limpezas de sanitas?”. Melhor ainda, impingem esta filosofia do “trabalho que deve fazer muito mal à saúde” aos filhos nascem cá e que têm direito a estudos completamente gratuitos (desde a caneta aos livros, digo TUDO, da primária até terminarem um curso universitário). Em vez de aproveitarem tal, deixam os estudos antes de terminarem sequer o ensino secundário para entrarem no ciclo das limpezas – desemprego – limpezas – desemprego – (forever).
Curiosamente, orgulho-me quando os meus colegas de trabalho (agência de publicidade multinacional onde sou o único tuga) me dizem que eu devo ser um Português falso:
Não uso bigode anos 70, não cuspo para o chão a cada 20 segundos, não armo porrada ou peixeirada em todo o sítio onde entro, não coço o tomate em locais públicos, não faço o ritual de higiene auricular com a unha, não endivido ou destruo a família graças a gastar fortunas em mariquices de tuning para o carro, não ouço música pimba e, principalmente porque trabalho e porque gosto de trabalhar e não estou a contar quantos meses faltam para ter direito a 2 anos de fundo de desemprego.
A “conversa da treta” sim, tenho saudade dela, mas mato essa saudade no messenger, ao telefone (diga-se Skype), no meu blog (fcolaco.com/blog) e quando vou umas semanas visitar a pátria (que NUNCA foi nem será em Agosto). E sinceramente, não me envergonho de dizer que não quero sequer pensar em voltar definitivamente para Portugal, a não ser que haja uma evolução económica e social extrema, o que não acredito (acredito mais que o país continue na sua constante involução).
Continua com o teu belogue, Sónia. Gosto da tua conversa, que está longe de ser da treta :)
[...] pela comunidade emigrante aqui por estes lados (devidamente acompanhada de valente sova), tal como o “comment” que deixei num post da Sónia, que por acaso me deu a conhecer este “livrinho”. Merci. Digg or Share this post: [...]